Livro de Marven Junius – Rio Oiapoque [ in blues ]

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Livro de Marven Junius – Rio Oiapoque [ in blues ]

Por Fernando Canto

O homem às vezes se desbota, tantas são as chuvas e nevoeiros que lhes batem e lhes estremecem o corpo no cotidiano, mas ao poeta cabe o encantamento das cores e dos sons que virão depois disso, quando ele se propõe a atravessar o tempo e romper estilisticamente épocas. Este é um caso particular de um bardo errante que encontra seu locus na fronteira, no extremo norte do Brasil, que como Orfeu vive preferencialmente na floresta, feito um cantor amante da natureza, da luz solar, dos retiros sombreados e das clareiras dos bosques, ensinando a seus discípulos o canto e a música plangente de sua lira.

Agora, porém, a lira é um clarinete, um sax, um piano, um trompete, uma bateria com seus tambores, pratos e baquetas escovadas, um baixo acústico, uma guitarra suave: um blues que improvisa um desenho melódico, sincopado de palavras nostálgicas para uma região da Amazônia pouco conhecida, a não ser como referência de um antigo ponto limítrofe do país. Neste instante a poesia abre mão de palavras-notas desnecessárias e toca a sinfonia in blues regida pelo poeta Marven, que a executa em três tempos: receio e solidão, encanto e sucessão dos dias, e enleios e lirismo. E é aqui, após solidões e lutas, que ele estarta a melancolia musical de uma Amazônia desconhecida, e até inédita, graças às peculiaridades geográficas e a diversidade humana e cultural daquela área transfronteiriça. E, nestes tempos cruéis, de tantas destruições, o poeta, como o dissemos acima, atravessa um tipo de romantismo esquecido para viver um outro mais contemporâneo, nascido da plasticidade do silêncio, da morna-ternura que faz o seu eu-lírico se revelar como o harmonizador de um caos inexistente, creio que pelas expressões subjetivas, metáforas e descobertas íntimas com o local e o seu tempo lento, onde o poeta instiga e espera um despertar decisivo dos seus habitantes.

O poeta veste suas roupas de nevoeiros e catraias para se mover entre as margens do rio Oiapoque, que um dia quase foi uma província imperial nos meados do século XIX, a de Oyapokia. Ele vai e volta cantando a lira antiga para dulcinéias & quixotes & deuses gregos ressuscitados, em recorrências que brilham mirificamente como os girassóis de Van Gogh, ou se transformam em um groove jazzístico, necessário para a execução da música que compôs.

 

Para um poeta que se autodenomina de tantos epítetos, como um “Dissipador de maus-olhados e decifrador de rios aperiódicos”, na verdade ele traz o pleno encantamento ao entrar nessa aventura-catraia e ser hoje água, rio e poesia na própria vida, como já afirmou em um texto deste livro. Diria que por isso, Marven Junius é um prestidigitateur que usa a sua manigância gramatical com misteriosas manobras poéticas para dotar a arte de escrever de maior elegância e beleza.

Ao tentar interpretar cada poema deste autor – pois a literatura necessita de interpretação, no dizer de Wolfgang Iser – diria ainda que o escritor, o poeta é um ser multifacetado e carregado de nuanças personalísticas e tensões, que quando se aparta do seu cotidiano persiste o esquadrinhamento de outras (i)realidades. Ele tem a capacidade de se libertar da própria personalidade para aparentar outra que lhe permita produzir o texto, a partir do ato de “fingir”.

Marven Junius Franklin chega a dar uma dimensão antropológica à sua literatura, não somente porque a ficção e o imaginário são frutos da experiência, mas porque o significado social da obra aqui epigrafada envolve o contato e o preparo popular, além da emoção de quem a arranca da vida pela observação e pelos sentidos. Daí, também porque este autor, como um etnógrafo do cotidiano de um local em urbanização e tão rico de linguagens e cores, expressar que ele é o seu Oiapoque, o seu lugar, banhado por água, silêncio, nevoeiro, luzes e um por manto musical de versos poéticos e doce melodia tocada in blues.

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